A Gestalt

"Qualquer abordagem (...) de psicologia que não se esconda por detrás de um jargão profissional deve ser compreensível para o leigo (...) e deve ser fundamentada em fatos do comportamento humano. Caso contrário, há algo basicamente errado com ela. A psicologia lida, afinal de contas com um objeto do maior interesse para os seres humanos: nós próprios e os outros. A compreensão da psicologia e de nós mesmos deve ser consistente. Se não, não podemos compreender nem entender o que fazemos, não podemos pretender resolver nossos problemas nem esperar viver vidas gratificantes. Porém tal compreensão do self envolve mais do que o entendimento intelectual habitual. Requer sentimento e também sensibilidade." Fritz Perls

 

Nosso intuito aqui é apresentar a Gestalt Terapia para o público de visitantes deste site, composto por alunos de psicologia, de formação e de especialização, pessoas em processo terapêutico na abordagem, interessados na Psicologia em geral, dentre outros. Para tanto, as informações foram sintetizadas e simplificadas. Ao final deste texto, apresentamos referências que podem ajudar a elucidar questões que aqui não foram contempladas. Frederick Salomon Perls (1893-1970), conhecido como Fritz Perls, é considerado o fundador da Gestalt Terapia. Desde 1940, em um movimento de dissidência da psicanálise freudiana, insatisfeito com as proposições adotadas até então no método clínico, rumou em direção ao desenvolvimento de um projeto terapêutico que, em 1951, passaria a denominar-se Gestalt Terapia. Com a ajuda de colaboradores que o auxiliaram a dar forma a um estilo próprio de trabalho, voltado para um fazer clínico que levava em conta a atenção do paciente ao momento presente da situação terapêutica, foi construindo uma teoria da prática clínica sustentada em aportes advindos da Psicologia da Gestalt, Teoria de Campo, Teoria Organísmica, Filosofia Fenomenológica, entre outros que, pelo método fenomenológico existencial, tomou uma forma peculiar de sustentação teórica e ação terapêutica.

A palavra gestalt é um termo do idioma alemão que não possui um referente exato na língua portuguesa e é mantido inalterado, nomeando a abordagem. Dentre as tentativas de tradução, uma das mais utilizadas é "forma". Esta, traz em si a concepção de um todo formado de partes que se inter-relacionam. Sempre que uma parte é tocada o todo se modifica, sendo esse um processo contínuo em qualquer situação de vida. Esta é a maneira de ver o homem e o mundo na Gestalt Terapia; como estando sempre em processo, em movimento. Este processo é a busca saudável por configurar formas capazes de abarcar as experiências na vida, possibilitando que cada pessoa possa reconhecer a si mesma em sua trajetória no tempo e no espaço, ou seja, no aqui e agora. A Gestalt Terapia busca possibilitar a compreensão do processo singular de cada pessoa, identificando os aspectos sensoriais, de ações motoras e de significados ocorridos no campo, ou seja, a forma como pessoa e meio estão em contato no presente em curso (este processo de contato é denominado self). Essas formas são expressões singulares, nomeadas em Gestalt, ajustamentos.

A Gestalt Terapia reconhece quatro tipos de ajustamentos: criativos, neuróticos, psicóticos e aflitivos. Quando o contato é fluido, ou seja, quando pessoa e meio estão continuamente em assimilação e crescimento, é o ajustamento criativo que está em curso no campo. Quando, ao contrário, existem interrupções, dificuldades, inibições entre outras formas de ajustar-se criativamente e essas seguem uma repetição continuada, temos então estabelecidos os ajustamentos nomeados disfuncionais, citados acima. Na terapia, para cada forma de ajustamento são necessárias intervenções específicas, observando as possibilidades e limites de cada situação. Tornando vívida a experiência imediata, o trabalho psicoterapêutico procura disponibilizar a possibilidade de retomada da fluidez ora interrompida, buscando que a pessoa possa ser protagonista das escolhas possíveis em sua vida e não mera expectadora de uma inexorável sucessão de causalidades no decorrer de sua existência.

O gestalt terapeuta não faz interpretações. Não explica os porquês. Ao invés disso, é um "parceiro de caminhada" enquanto dura a terapia viabilizando, através de experimentações, que o cliente conheça, nomeie e eleja os aspectos de sua existência que precisam de atenção, cuidado e resignificação. O autor do processo é sempre o cliente; é ele quem identifica os aspectos dolorosos e prazerosos de sua vivência; é ele quem convive consigo e sente como as coisas implicam em dor e sofrimento ou quando começam a melhorar. A Gestalt Terapia é um referencial de trabalho que se presta a resgatar a saúde pelo respeito à alteridade e não buscando encaixar as pessoas num referencial teórico patológico "a priori".

O processo de psicoterapia nesta abordagem está voltado para o resgate e desenvolvimento de uma postura interdependente, criativa e livre na vida. Esta é a ética que subjaz o caminho iniciado por Fritz Perls, juntamente a seus contemporâneos e compartilhado pelos profissionais que da Gestalt Terapia se acercaram, trabalhando ao longo dos anos para desenvolver teórica e tecnicamente a abordagem até os dias atuais como psicoterapeutas, pesquisadores e estudiosos no campo da Psicologia.

Vale acrescentar que o percurso de desenvolvimento da Gestalt Terapia contempla ainda a aplicação de tais aportes não apenas à psicoterapia, mas a outros campos de atuação. Neste sentido, a Abordagem Gestáltica confere um espaço bem mais amplo à aplicação da psicologia clínica, fazendo interface com a educação, as organizações, a justiça, a saúde pública, o esporte; dentre outros. Assim, disponibiliza sua forma criativa de trabalho para buscar compreender e intervir frente às necessidades da vida humana nas configurações mais plurais que está é capaz de alcançar.

 

Referências bibliográficas:

 

Iniciantes 

PERLS, F. Abordagem gestáltica e testemunha ocular da terapia. São Paulo: Zahar, 1977.

RODRIGUES. H. E. Introdução a Gestalt Terapia. Rio de Janeiro: Vozes, 2000.

Profissionais

PERLS, F. Gestalt Terapia explicada. São Paulo: Summus, 1977.

PERLS, F., HEFFERLINE, P. e GOODMAN, P. Gestalt Terapia. São Paulo: Summus, 1997.

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